A campanha eleitoral começa oficialmente neste domingo (16) na Bahia com uma certeza: quem apostar que a eleição para o governo do Estado já tem dono corre sério risco de errar. O cenário desenhado pelas pesquisas mais recentes aponta para uma disputa acirrada entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues, em uma eleição que tende a ser decidida muito mais pela capacidade de cada grupo de conquistar o eleitor indeciso do que pela fotografia registrada neste momento.
O levantamento Real Time Big Data divulgado nesta semana é emblemático. ACM Neto aparece com 44% das intenções de voto, enquanto Jerônimo Rodrigues registra 42%. Tecnicamente, portanto, há empate. A pesquisa ouviu 1.600 eleitores entre os dias 6 e 10 de agosto.
É importante olhar para esses números sem transformar pesquisa em resultado eleitoral. Pesquisa mede intenção de voto em determinado momento; eleição, por sua vez, é movimento. E é justamente esse movimento que começa agora.
Até aqui, os principais grupos políticos passaram meses construindo alianças, consolidando palanques e testando discursos. A partir de domingo, começa uma fase completamente diferente: os candidatos poderão disputar diretamente a atenção do eleitor, apresentar propostas, explorar fragilidades dos adversários e, principalmente, tentar transformar conhecimento e rejeição em voto.
E esse talvez seja o ponto central da eleição baiana.
Uma disputa que ainda pode mudar muito
A diferença de apenas dois pontos entre ACM Neto e Jerônimo mostra que nenhum dos dois candidatos conseguiu abrir uma vantagem suficientemente confortável para administrar a campanha.
Mais do que isso: os números indicam que existe espaço para crescimento e também para perda de votos.
No caso de ACM Neto, o desafio será transformar a vantagem numérica em uma liderança mais consistente. O ex-prefeito de Salvador chega à largada com forte conhecimento do eleitorado e uma estrutura política ampliada, mas também precisa enfrentar o peso da rejeição. Em um levantamento recente, seu índice de rejeição aparece em patamar elevado.
Jerônimo, por outro lado, tem uma equação diferente. O governador chega à campanha como candidato à reeleição e conta com o maior cabo eleitoral da política baiana: Luiz Inácio Lula da Silva. Ao mesmo tempo, precisa fazer com que a aprovação de seu governo se converta efetivamente em intenção de voto.
A pesquisa Real Time aponta 51% de aprovação da gestão estadual, dado que, em tese, oferece ao petista uma base importante para defender sua permanência no Palácio de Ondina.
A questão é saber se essa aprovação será suficiente para superar a competitividade de ACM Neto.
O fator Lula continuará sendo decisivo?
Essa será provavelmente uma das principais perguntas da campanha.
A Bahia continua sendo um dos estados onde Lula possui uma força eleitoral extraordinária. E o próprio presidente já deixou claro que pretende participar ativamente da disputa baiana.
Para Jerônimo, a presença de Lula é estratégica. Para ACM Neto, ignorar o peso do presidente seria um erro. A tendência é que a campanha seja atravessada, direta ou indiretamente, pela avaliação que o eleitor baiano faz do governo federal.
Mas há uma novidade importante em 2026: o eleitor baiano pode estar menos disposto a votar em bloco do que em eleições anteriores.
A combinação entre Lula para presidente e um candidato de oposição para governador, por exemplo, não pode ser descartada. Da mesma forma, um eleitor pode apoiar Jerônimo para o governo e escolher candidatos de outros grupos para o Senado.
Isso significa que a velha lógica de que o eleitor necessariamente acompanha o mesmo grupo em todos os cargos terá de ser relativizada.
Senado: uma eleição dentro da eleição
Se a disputa pelo governo promete ser apertada, a corrida pelas duas vagas ao Senado também merece atenção.
O levantamento Real Time Big Data coloca Rui Costa na liderança, com 25%, seguido por Jaques Wagner, com 20%. Angelo Coronel e João Roma aparecem empatados com 15%.
Aqui está outro elemento interessante: dois candidatos do mesmo campo político aparecem na frente, mas a distância para os adversários não é tão grande a ponto de permitir acomodação.
A eleição para o Senado tem uma característica peculiar: cada eleitor poderá escolher dois nomes. Isso abre espaço para combinações diferentes e torna a estratégia dos candidatos fundamental.
Rui Costa e Jaques Wagner precisarão evitar a dispersão do voto governista. Já João Roma e Angelo Coronel terão de disputar um eleitorado que pode ser decisivo justamente no meio do caminho entre os dois polos principais.
A tendência é de uma campanha intensa, com muita negociação política, ataques e tentativa de associação dos candidatos a grupos nacionais.
O eleitor será o protagonista da reta final
Talvez a maior diferença entre o momento atual e o que veremos daqui a algumas semanas seja a quantidade de informação disponível ao eleitor.
A propaganda eleitoral começa oficialmente em 16 de agosto e seguirá até a véspera da votação. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Ou seja: há pouco mais de sete semanas para que os candidatos tentem mudar a percepção do eleitorado.
É tempo suficiente para uma eleição mudar de rumo.
A história recente mostra que campanhas eleitorais podem alterar cenários considerados consolidados. Um candidato pode crescer ao conseguir ocupar determinado espaço político; outro pode perder força diante de uma crise, de uma declaração mal calculada ou de uma campanha negativa eficiente.
E as redes sociais terão papel ainda maior.
O eleitor baiano será exposto a vídeos curtos, memes, cortes de entrevistas, pesquisas, ataques, respostas e, inevitavelmente, desinformação. O próprio Tribunal Superior Eleitoral atualizou as regras eleitorais para enfrentar conteúdos falsos e disciplinar o uso de inteligência artificial durante a campanha.
Isso exigirá atenção redobrada não apenas dos candidatos, mas também do eleitor e da imprensa.
O que esperar dos próximos 50 dias?
A primeira expectativa é de uma campanha mais agressiva.
Quando dois candidatos estão praticamente empatados, não há espaço para uma campanha morna. ACM Neto deverá tentar explorar os problemas e as dificuldades atribuídas ao governo Jerônimo, enquanto o governador deverá apresentar a eleição como uma escolha entre a continuidade de um projeto político e o retorno de um grupo que já comandou o Estado.
A segunda tendência será a nacionalização do debate.
Lula estará presente na campanha de Jerônimo. O campo de oposição tentará nacionalizar temas relacionados ao governo federal e à polarização política. A Bahia, portanto, dificilmente conseguirá escapar completamente da disputa nacional.
A terceira expectativa é de uma corrida pelo eleitor que ainda não decidiu seu voto.
É esse eleitor que pode definir a eleição.
Com ACM Neto e Jerônimo praticamente empatados, cada ponto percentual poderá representar milhares de votos. E, em uma eleição dessa natureza, convencer uma parcela relativamente pequena dos indecisos pode ser mais importante do que mobilizar grandes multidões.
A eleição começa agora – e termina apenas na urna
O mais importante, neste momento, é resistir à tentação de transformar pesquisa em prognóstico.
ACM Neto não está eleito porque aparece numericamente à frente. Jerônimo não está derrotado porque não lidera. Os dois estão, na prática, diante de uma disputa que começa neste domingo em condições de forte competitividade.
O eleitor baiano terá pouco mais de 50 dias para ouvir propostas, acompanhar debates, avaliar governos, comparar trajetórias e decidir quem considera mais preparado para comandar o Estado pelos próximos quatro anos.
E há uma diferença fundamental entre o que aconteceu até agora e o que começa a partir deste domingo: agora a campanha será para valer.
Até aqui, os candidatos prepararam o terreno. A partir de agora, começa a batalha pela narrativa.
Quem conseguir falar melhor com o eleitor, apresentar uma mensagem mais clara, reduzir sua rejeição e transformar alianças políticas em voto terá vantagem.
A Bahia entra, portanto, em uma eleição que promete ser marcada por polarização, ataques, forte presença nacional e disputa voto a voto.
E se as pesquisas de agosto servem como fotografia, uma coisa parece cada vez mais evidente: a eleição de 2026 ainda está longe de ter uma imagem definitiva.

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