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O primeiro golpe militar a gente nunca esquece







Traição e golpe. São as duas palavras que podem resumir o que aconteceu no Brasil a 15 de novembro de 1889. O longevo e barbudo imperador Pedro de Alcântara estava em Petrópolis com a família na manhã dessa sexta-feira quando foi chamado com urgência à corte: o ministério Visconde de Ouro Preto tinha se exonerado. O governo tinha caído. Só quando chegou ao Palácio Imperial ficou sabendo da pior parte da história: a monarquia tinha caído.





A exoneração do ministério foi exigida pelo marechal Manuel Deodoro da Fonseca, no comando de vários batalhões de oficiais e de soldados. Se os ministros desobedecessem, seriam presos. Um deles, o Barão do Ladário, tentou resistir. Reagiu atirando. Mas também foi alvejado e caiu ferido.

Assim que a exoneração foi entregue a Deodoro ele se proclamou chefe do governo provisório e fechou a Câmara dos Deputados, para ninguém ter dúvida acerca de quem estava mandando. Estava consumado o primeiro golpe militar da história do Brasil. Sem um tiro sequer. Essa, aliás, é uma constante nos golpes militares brasileiros.

A monarquia caiu sem ter ninguém a defendê-la. O imperador fora traído por todos os oficiais nomeados por ele.

O movimento pela República, no começo majoritariamente civil, no qual se engajaram jornais ("A Democracia" e tantos outros), jornalistas, escritores, poetas ganhara apoio popular, estava forte, mas ninguém conseguia amarrar o guizo no gato. Os civis defendiam a República, mas não sabiam como chegar até ela.

Talvez esperassem o imperador perceber que não estava agradando e sair por vontade própria. Mas é claro que ninguém deixa 44 anos de poder desse modo. Um monarca só deixa o trono morto ou à força. E foi aí que os militares entraram. Fizeram o serviço sujo, aquele que os civis não têm como fazer.

Às 2h45 da madrugada de 17 de novembro o tenente-coronel Mallet, designado pelo governo provisório, se apresentou no paço da cidade para acompanhar o embarque da família imperial para o exílio – que fora ordenado às 3 da tarde do dia 16.

Segundo reportagem da Gazeta de Notícias, de 18 de novembro, "o imperador, visivelmente alterado e como se ainda lhe custasse acreditar na realidade dos fatos perguntava sucessivas vezes:

- Mas o que é isto, senhor Mallet? O que foi que fizemos? O senhor está doido! Os outros estão doidos! Diga: qual é a minha culpa? Do que me acusam"?

"A Princesa Isabel chorava desesperadamente e, apoiando-se no braço do tenente-coronel para entrar no carro disse:

- Ah, sr. Mallet, os senhores hão de arrepender-se"!

Deodoro não cumpriu as promessas de que o país viraria a terra onde jorraria o leite e o mel depois de derrubada a monarquia. Nos cinco anos seguintes não vicejou a democracia prometida, mas uma ditadura militar de dois anos sob Deodoro e mais três sob Floriano Peixoto. Somente em 1894 seria eleito o primeiro presidente civil.





Os generais voltaram ao poder somente em 1930, traindo, como ocorreu em 1889, o presidente Washington Luís, dividindo-o com Getúlio Vargas. Sete anos mais tarde ficariam mais poderosos ainda aderindo ao golpe do Estado Novo, em que Vargas, num autogolpe, derrubou a si próprio, proclamando-se ditador.

Sempre poderosos e decisivos, os generais tiraram Vargas de cena em 1946, num golpe silencioso, sutil, encomendado por Tio Sam, do qual um de seus – o marechal Dutra – emergiu como o primeiro presidente militar eleito. Apoiado por Vargas.

Os generais continuaram dando as cartas. Ameaçaram virar a mesa em 1961 se o vice João Goulart assumisse o lugar de Jânio, que renunciara e só deixaram assumir quando o Congresso aprovou, a toque de caixa, o parlamentarismo.

Três anos mais tarde, mais uma vez sem dar um tiro, tiraram João Goulart do Palácio da Alvorada, dando início à segunda ditadura militar que durou 20 anos.

Os generais estiveram, portanto, ou no poder ou dando as cartas de alguma forma durante todo o século 20. Depois de 1985, tendo fracassado na missão de conduzir o país à prosperidade, se recolheram aos quartéis.

Michel Temer ficará na história como o presidente civil que trouxe os generais de volta à ribalta. Eles nunca estiveram tão presentes na vida política brasileira, desde a redemocratização, como nos últimos dois anos.

Empoderados, mesmo os generais tidos como moderados, como o atual comandante das Forças Armadas, Eduardo Villas Boas, extrapolam de suas funções constitucionais, dando preocupantes prensas até no STF, como se integrassem o 4º. Poder da República.

Ditadura militar e governo Bolsonaro são duas coisas diferentes. Mas ele poderá usar essa ameaça para intimidar o Congresso e a mídia a aprovar suas reformas.

A ameaça só irá se concretizar se os generais baterem continência para um ex-capitão.



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