
A Acadêmicos de Niterói desfilou na noite de domingo, 15 de fevereiro de 2026, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, com um enredo dedicado à vida e à trajetória política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente acompanhou a apresentação do camarote da prefeitura e, em um breve momento, desceu até a pista para beijar o pavilhão da escola carregado pela porta-bandeira.
A homenagem, além de mobilizar o público na avenida, acendeu uma disputa política em Brasília sobre limites entre celebração cultural e instrumentalização eleitoral.
Lula na Sapucaí e os símbolos da homenagem
O desfile de uma escola ligada a Niterói, na Região Metropolitana do Rio, transformou a Sapucaí em palco de uma narrativa sobre a trajetória do petista, em um momento em que a presença do presidente no Carnaval ganhou leitura política inevitável. No camarote da prefeitura, Lula assistiu de perto ao enredo e teve participação pontual ao descer para a pista e demonstrar afeto pelo pavilhão da agremiação.
O gesto, apesar de breve, concentrou a atenção de fotógrafos e do noticiário, porque reforça o caráter de protagonismo do homenageado e, ao mesmo tempo, potencializa críticas de adversários que buscam enquadrar o episódio como publicidade política. O impacto público, porém, não se limitou à figura do presidente: a própria narrativa da escola incluiu referências diretas a personagens do embate institucional brasileiro recente.
Bolsonaro, Temer e Moraes como personagens do desfile
O desfile contou em diferentes momentos com referências ao ex-presidente Jair Bolsonaro, adversário político de Lula. Bolsonaro teria sido retratado como palhaço na comissão de frente e como presidiário em um dos carros alegóricos. Além disso, outras figuras públicas também teriam sido representadas no sambódromo, como o ex-presidente Michel Temer e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
A presença desses personagens no conjunto alegórico dá a medida do quanto o Carnaval, historicamente marcado por crítica social e sátira política, volta a funcionar como arena de disputa simbólica. Ao inserir figuras do noticiário político e institucional no desfile, a escola amplia o alcance do enredo para além do tributo biográfico, aproximando a apresentação de uma leitura sobre conflitos recentes do país.
Essa escolha, por sua natureza, tende a alimentar reações cruzadas: de um lado, quem vê no desfile uma expressão legítima da liberdade artística e da tradição carnavalesca de comentário político; de outro, quem tenta enquadrar a homenagem como peça de promoção indevida, sobretudo por envolver um presidente em exercício e um evento de grande visibilidade.
A judicialização: acusações, ações e decisões
A escolha do tema pela Acadêmicos de Niterói causou alvoroço em Brasília. De acordo com o texto, o Partido Novo alegou propaganda eleitoral antecipada. Além disso, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) alegaram dano ao patrimônio público. As duas ações foram indeferidas pela Justiça.
O desfecho judicial mencionado na reportagem é central para entender a tentativa de setores da oposição de levar o episódio do campo cultural para o campo jurídico. Ao acionar a Justiça, os parlamentares e o partido buscaram sustentar que haveria irregularidade na homenagem, seja por suposta antecipação eleitoral, seja por eventual impacto sobre recursos e bens públicos.
O indeferimento das ações, conforme relatado, sinaliza que os argumentos apresentados não prosperaram no Judiciário, ao menos no formato em que foram levados. Politicamente, contudo, a disputa não se encerra: decisões judiciais podem não satisfazer a estratégia de desgaste, que muitas vezes opera pela produção de controvérsia e pela tentativa de constranger o agente público, mesmo sem condenação ou punição.
O Planalto e a preocupação com imagem e recursos públicos
Ainda conforme a reportagem, o Planalto pediu para que Lula assistisse ao desfile das quatro escolas de samba que passariam pela Marquês de Sapucaí naquele domingo. No entendimento do governo, isso ajudaria a demonstrar que o presidente foi prestigiar o evento como um todo, e não apenas a agremiação que o homenageava — que foi a primeira a entrar na avenida.
A orientação revela uma preocupação explícita com a leitura política da presença do presidente. Ao ampliar o roteiro de Lula na Sapucaí, o governo buscaria reduzir o argumento de que a ida teria sido planejada exclusivamente para reforçar a homenagem feita pela escola de Niterói. Na prática, trata-se de uma medida de comunicação política e gestão de risco, diante da previsibilidade de ataques sobre o tema.
A reportagem também afirma que ministros do governo Lula receberam orientações para não desfilar. E os que decidissem viajar ao Rio de Janeiro para acompanhar o Carnaval deveriam ir por meios próprios, evitando a utilização de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) ou qualquer tipo de recurso público.
Esse ponto reforça o cuidado em evitar vulnerabilidades administrativas e acusações de uso de dinheiro público para fins políticos ou pessoais. Em um ambiente de alta polarização, a simples suspeita de benefício indevido costuma ser explorada como narrativa, independentemente de comprovação. Ao orientar previamente sobre deslocamentos e participação, o Planalto tenta fechar flancos e manter a visita do presidente dentro de uma moldura institucional defensável.
0 Comentários