
O Ilê Aiyê realiza neste sábado (17) mais uma edição do tradicional concurso Noite da Beleza Negra, que vai eleger a próxima Deusa do Ébano, responsável por representar a entidade ao longo dos próximos meses. Ao todo, 15 mulheres disputam o título. O Portal Umbu conversou com quatro das finalistas para compreender quais são suas motivações, a preparação para a grande noite e de que forma suas trajetórias dialogam com a cultura negra, a ancestralidade e o simbolismo que atravessam o concurso.
Mavich Souza tem 20 anos é cartomante, coreógrafa e capoeirista e uma das candidatas ao concurso Deusa do Ébano 2026, promovido pelo bloco afro Ilê Aiyê. Mulher negra, e de Candomblé, ela afirma sua presença no concurso a partir de uma trajetória marcada por enfrentamentos cotidianos ao racismo e pela decisão política de existir sem fragmentações. “Tudo o que eu sou não é improviso. É memória, é resistência e é escolha”, afirma.
A experiência com o racismo atravessou sua vida desde cedo. Ainda criança, ao estudar em um colégio católico, a jovem percebeu que seu corpo, sua fé e sua identidade seriam constantemente colocados sob vigilância.
“Antes mesmo de conseguir nomear o racismo, eu já sentia o peso do olhar diferente e do não pertencimento”, relata. Para ela, ser uma menina negra e de Candomblé exigiu amadurecimento precoce e estratégias permanentes de proteção.
Na tentativa de sobreviver a esses atravessamentos, houve momentos de negociação com padrões que não a reconheciam. “Tentar caber nesses lugares me tirou tempo, leveza e autoestima”, diz. A ruptura, segundo Mavich, foi um gesto de retorno a si mesma. “Quando parei de tentar me encaixar, recuperei minha identidade e minha autonomia. Hoje eu sei que não preciso ser aceita, preciso ser respeitada.”

A força que sustenta essa trajetória vem de mulheres negras que sempre estiveram à sua volta. As orixás, sua mãe e as Deusas do Ébano aparecem como referências que moldaram sua forma de existir no mundo. “Aprendi a não abaixar a cabeça, a olhar de frente e a cuidar dos meus. Isso também é herança”, afirma.
A relação com o próprio corpo e com a ideia de beleza foi construída a partir do enfrentamento às violências simbólicas impostas às mulheres negras. O processo de reconstrução começou quando entendeu que seu corpo não precisava ser autorizado.
“Meu corpo não precisa de permissão para existir”, diz. O desafio, segundo ela, foi desaprender a rejeição ensinada socialmente e se reconhecer como legítima.
A decisão de se inscrever na Noite da Beleza Negra não está dissociada desse percurso, a candidatura é atravessada por cura, desafio e memória. “Não é sobre competir. É sobre ocupar um espaço simbólico e afirmar que nossas histórias importam”, afirma. Ao se colocar nesse lugar, ela homenageia mulheres negras que abriram caminhos antes dela.
Ao sintetizar sua caminhada, a candidata Mavich Souza, escolhe a palavra insurgência. “Existir como eu existo, amar meu corpo, minha história e minha ancestralidade é um enfrentamento diário contra tudo o que tentou me apagar”, conclui.
Celebrando a reafirmação da identidade negra por meio da arte, da música e da resistência cultural, Mavich Souza se apresenta junto a outras candidatas ao título de Deusa do Ébano na Noite da Beleza Negra 2026 neste sábado (17), na Senzala do Barro Preto, sede do bloco Ilê Aiyê. O evento será transmitido ao vivo pela TVE, TV Brasil e pelo canal da TVE no YouTube.
0 Comentários