
A situação de Jair Bolsonaro (PL) já era dramática. Ele havia sido condenado a 27 anos e três meses de prisão por liderar a conspiração que tentou levar a cabo um golpe de Estado no país. A sentença dura foi em decorrência de cinco crimes e veio após um processo público minucioso, com amplo direito de defesa, no qual ficou demonstrado que o ex-presidente de extrema direita conduziu um plano que envolveria até o assassinato do presidente e do vice eleitos, Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB), respectivamente, e do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Em prisão domiciliar desde agosto, Bolsonaro sabia que seu processo já estava praticamente encerrado, aguardando apenas a apresentação de um último recurso repetitivo, que seria considerado protelatório, para que então ele fosse enviado à cadeia, algo que poderia ocorrer já a partir desta segunda (25). A esperança dele e de seu entorno? Que um dossiê bem recheado de papéis e laudos, “atestando uma situação gravíssima de saúde”, permitisse em poucos dias sua remoção para cumprimento da pena em regime domiciliar, para que o golpista seguisse na mansão luxuosa de um condomínio do bairro Jardim Botânico, em Brasília.
Só que, literalmente da noite para o dia, mais precisamente entre o fim da noite de sexta (21) e o raiar do sol do sábado (22), tudo mudou e agora Bolsonaro está preso numa cela especial da Superintendência da Polícia Federal do DF, de onde não se tem nem a mais remota esperança de que ele saia para retornar para casa. E esse quadro absolutamente adverso e difícil se instalou após uma sequência de atitudes absurdas do líder extremista, seguida de um rosário de mentiras que acabou por encerrar de vez, e de maneira melancólica, com sua vida política.
Desde então, diante do “leite derramado”, a horda bolsonarista nas redes, assim como seus filhos e colaboradores mais próximos, têm empregado um oceano de mentiras e versões para tentar mostrar que o “mito” mais uma vez teria sido alvo de uma “perseguição”. Pura balela.
Veja abaixo a sequência de insanidades e mentiras de Bolsonaro que culminaram em sua prisão:
É público, notório, comprovado e oficial que Jair Bolsonaro tentou destruir a tornozeleira eletrônica que o monitorava usando um ferro de solda. Só que a primeira mentira que o desmascarou foi o que ele disse aos policiais penais que o vigiavam do lado de fora de sua mansão. Ao ser notificado da violação, o Centro Integrado de Monitoração Eletrônica da Polícia Penal do Distrito Federal (Cime) ordenou que os agentes fossem falar com o ex-presidente, e ele então disse que havia batido o aparelho numa escada.
A resposta, aparentemente plausível, foi aceita e repassada ao Cime, que mandou uma equipe e a chefia do órgão até a residência do condenado, para trocar o equipamento e checar melhor o que havia acontecido. Ao se depararem com Bolsonaro, perceberam que a tornozeleira estava queimada, apenas na extensão externa do encaixe do chamado “case”, o casco que preserva intactos e protegidos os componentes eletrônicos do dispositivo. Estava aí confirmada a segunda mentira. Quem fez aquilo queria abrir o aparelho e acessar seu interior.
Já preso, começa então a versão “oficial” dele e da família, a terceira mentira, a de que tudo foi fruto de um “surto” produzido por remédios. O problema é que o ex-presidente estaria, então, diante de ser novamente desmascarado com uma quarta mentira deslavada, contada horas antes ao tentar se livrar de seu plano de fuga descoberto, diante da equipe do Cime: ele foi filmado em casa, após os servidores penais chegarem, admitindo, de forma serena, que tentou abrir a tornozeleira com um ferro de solda por mera “curiosidade”. Depois, vários psiquiatras e profissionais de saúde mental viriam a descartar tecnicamente uma ação desse tipo como reação adversa de algum medicamento.
Bateu na escada, mas estava queimada? Estava queimada porque ele era curioso, mas ele não estava em surto? A coisa ia piorando a cada hora.
Para encerrar a enxurrada de mentiras, seu filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ), estopim de toda essa última crise, por conta de uma ideia “brilhante” de organizar uma vigília na porta da casa do pai, acabou usando outra versão para todo o ocorrido: Bolsonaro fez aquilo com a tornozeleira “por vergonha”. Estava posta a quinta mentira.
Claro, se todo condenado que usa um dispositivo de monitoramento for queimá-lo porque está com vergonha, não existiriam mais aparelhinhos do tipo no mundo. Evidentemente, ao dar essa desculpa, o senador fluminense assume que o pai fez tudo de forma consciente, e que mais uma vez estava cometendo um delito, pois vergonha não dá o direito a ninguém de retirar a tornozeleira.
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