Reação ao tarifaço revela estratégia da extrema direita: da celebração a um ajuste de "sintonia fina" para seguir defendendo a anistia

Durante quase todo o governo Bolsonaro, alguns veículos da mídia corporativa adotavam a expressão "mudar o tom" para justificar recuos (muitas vezes aparentes) do então presidente para bravatas ou atitudes e medidas que eram malvistas nas redes sociais após serem anunciadas. Agora, a história pode se repetir com o episódio do tarifaço de Donald Trump.
Em postagem no X (ex-Twitter), o ex-presidente falou pela primeira vez sobre os prejuízos que o Brasil teria com a iniciativa do presidente estadunidense.
Após dizer que a decisão de Trump "tem muito mais, ou quase tudo, a ver com valores e liberdade, do que com economia", Bolsonaro alegou lamentar a medida. "Não me alegra ver sanções pessoais, ou familiares, a quem quer que seja. Não me alegra ver nossos produtores do campo ou da cidade, bem como o povo, sofrer com essa tarifa de 50%", disse.
Em seguida, contudo, insistiu na questão que "pacificaria" o imbróglio. "O tempo urge, as sanções entram em vigor no dia 1° de agosto. A solução está nas mãos das autoridades brasileiras. Em havendo harmonia e independência entre os Poderes nasce o perdão entre irmãos e, com a anistia também a paz para a economia", postou.
Tarifaço celebrado
Celebrada por bolsonaristas, a taxação de 50% sobre produtos brasileiros anunciada por Trump logo se tornou uma pauta de chantagem explícita. Primeiro, com a carta do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do jornalista Paulo Figueiredo.
“Apelamos para que as autoridades brasileiras evitem escalar o conflito e adotem uma saída institucional que restaure as liberdades. Cabe ao Congresso liderar esse processo, começando com uma anistia ampla, geral e irrestrita, seguida de uma nova legislação que garanta a liberdade de expressão — especialmente online — e a responsabilização dos agentes públicos que abusaram do poder”, disseram eles.
Em entrevistas concedidas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a demanda por anistia seguiu, sendo ignorados os impactos negativos do tarifaço. Ele sugeriu, inclusive, que o Brasil não teria condições de retaliar os EUA.
"Então, essa situação tem que ser encarada como uma negociação de guerra onde nós não estamos em condições normais. Nós não estamos em condições de exigir nada por parte do governo Trump, ele vai fazer o que ele quiser, independente da nossa vontade", defendeu.
A postagem de Jair Bolsonaro deste domingo é menos uma "mudança de tom" e mais um ajuste de "sintonia fina" para passar uma mensagem de preocupação com o país, algo até então ignorado por ele mesmo, seus filhos e aliados. Também por conta da reação nas redes sociais, onde mais uma vez a narrativa da extrema direita teve dificuldades de ser emplacada.
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