Como o Bolsonarismo ainda aprofunda a desinformação sobre a covid-19 | Reconvale Noticias

De “supernotificação” a questionamentos distorcidos sobre a eficácia das vacinas, o bolsonarismo endurece a narrativa de desprezo à ciência

São Paulo – No início do mês, o presidente Jair Bolsonaro concedeu uma entrevista a conspiracionistas e negacionistas alemães e voltou a mentir sobre a covid-19. Disse, por exemplo, que o número de mortes pelo vírus no Brasil é “superdimensionado”. Além disso, afirmou que “muitas (vítimas) tinham alguma comorbidade, então a covid apenas encurtou a vida delas”. A realidade é oposta. O descaso do governo desse presidente levou o Brasil ao maior caos sanitário e hospitalar da história. E existe, conforme já comprovado pela ciência, uma subnotificação de mortes no país. Mas o bolsonarismo ainda apela para discursos mentirosos sobre a efetividade de vacinas.
Inconsistências nos sistemas de notificação, fraudes em laudos, como se viu na Prevent Senior, para mascarar a gravidade do vírus, falta de testes e de políticas públicas para combater o vírus. Tudo isso levou o Brasil a ter em suas bases de dados menos mortes por covid-19 do que a realidade. “Em nome dessa economia que temos hoje, valeu manter o país aberto e registrar 600 mil mortes por uma doença evitável? Registrar, porque as mortes reais devem ter passado de 750 mil até agora”, criticou o biólogo e divulgador científico Atila Iamarino.
País do bolsonarismo é o pior
A ponderação de 750 mil mortes de Atila tem fundamento em levantamentos científicos. No último mês, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) fez um cálculo preciso com a correção do número de mortes apenas de março a dezembro de 2020. Foram “encontradas” 35.476 vítimas não notificadas, sem contar com os casos de fraudes, mortos que não realizaram testes e “erros” no preenchimento dos atestados de óbito.
Os números oficiais do ano passado foram de 194.949 vítimas, enquanto neste ano já são, oficialmente, 398.714. Desse modo, é o país com mais mortes em 2021. Ao fazer o paralelo da subnotificação do ano passado com este, de forma conservadora, a realidade aponta para mais de 698 mil vítimas. Isso posiciona o Brasil como país com mais mortes por covid-19 no mundo, em números gerais, ultrapassando os Estados Unidos, que somam 690.152 vítimas, e contam com um sistema de monitoramento superior ao brasileiro.
Negacionismo e distorção
Além das mentiras sobre a notificação de casos, o bolsonarismo agora engrossa o discurso contrário às vacinas. O presidente, membros do governo e aliados próximos, como o deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o filho 03, estão divulgam narrativa distorcida sobre os imunizantes e políticas de estímulo à vacinação, como o chamado “passaporte da vacina”, defendido por cientistas. Sempre sem máscaras, promovendo e incentivando aglomerações, três membros da comitiva do presidente que foram aos Estados Unidos nesta semana contraíram covid-19.
O fato de estarem vacinados serviu para fossem intensificados ataques contra os imunizantes. “Sabemos que as vacinas foram feitas mais rápidas do que o padrão. Tomei a primeira dose de Pfizer e contraí covid”, disse Eduardo. Mesmo o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que também foi infectado, chegou compartilhar uma postagem em uma rede social com conteúdo antivacina. “Que ironia! Ministro seguiu todos os protocolos, vacinou com a CoronaVac, usa máscara o tempo inteiro e foi contaminado. O presidente não se vacinou, não usa máscara estava ao lado dele e não pegou”, dizia o post, que foi excluído.
Verdade e ciência
Conforme extenso histórico de reportagens da RBA com entrevistas com diferentes cientistas, as vacinas não impedem totalmente o contágio da covid-19. Entretanto, elas são altamente eficazes em reduzir a letalidade e a progressão mais grave da doença. “‘Ai, mas tomei vacina e peguei covid’. Sim, e a vacina nos poupou de usar um leito de UTI pra te tratar. Aproveita o privilégio pra continuar desinformando, mas vivo”, ironizou Atila.
Mesmo a variante delta, que é dominante em todo o mundo, possui maior poder de circulação entre vacinados. Vacinas protegem do agravamento da covid-19 por qualquer variante. “A delta esteve associada com maiores cargas virais considerando a viabilidade em cultura, maior escape vacinal, mas apresentou porcentagem de hospitalização similar à (variante) alpha, confirmando achados prévios. Ou seja, a vacinação completa protege muito de adoecimento grave e de morte. O efeito na transmissão talvez seja menor do que o desejado, mas não é nulo”, comenta o infectologista e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alexandre Zavascki.

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