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Jovem com deficiência intelectual é denunciado após postagem sobre Lázaro e acaba morto pela polícia | Reconvale Noticias




Há 13 dias, o Brasil está angustiado com os crimes do “serial killer de Brasília”, Lázaro Barbosa. No entanto, na última quinta-feira (17), o caso se ramificou e resultou na morte de um jovem de 23 anos. Policiais de Presidente Dutra, no Maranhão, mataram Hamilton Cesar Lima Bandeira após denúncias de que ele estaria, supostamente, enaltecendo os crimes de Barbosa na web.

Tudo aconteceu no povoado de Calumbi. Segundo a mãe do rapaz, Ana Maria Lima Dias, Hamilton tinha deficiência intelectual e tomava remédios controlados devido à sua condição. Ele então se tornou alvo da polícia local depois de publicar imagens em seus perfis nas redes sociais, com a seguinte legenda: “Eu sou teu ídolo, Lázaro. Boa sorte, Lázaro (sic)“.

O jovem se referiu ao criminoso procurado pela polícia em Goiás, acusado de assassinar quatro pessoas de uma família em Ceilândia Norte e aterrorizar moradores no Distrito Federal e seus entornos. “Foi uma crueldade, ele nunca fez mal a ninguém, mataram ele na frente de um idoso de 99 anos”, lamentou Ana em entrevista.

“Ele tinha 23 anos, mas tinha mentalidade de um rapaz de 12 anos porque tinha um distúrbio mental. Ele nunca matou, nunca roubou, nunca estuprou, apenas postava essas coisas porque ele tinha problemas mentais, tenho laudos que provam isso”, declarou ela, que então detalhou os acontecimentos que antecederam a morte do filho.

Em seu relato, Ana apontou que, na manhã da tragédia, estava trabalhando e Hamilton, que vivia com o avô, estava arrumando a casa e fazendo o almoço para o idoso. “Eu não estava no local, fiquei sabendo por uma ligação da minha vizinha. Por volta das 10h, ele [Hamilton] ficou jogando bola com crianças na casa de um vizinho. Às 11h, ele foi para casa tomar banho, limpou a casa, lavou a louça, almoçou e deu almoço para o avô, para quem disse iria descansar”, continuou.
Na sequência, o homem mais velho, que não foi identificado, foi surpreendido com a chegada de três policiais. “Meu filho entrou no quarto e deitou na cama. Quando o avô dele sentou para comer, os policiais chegaram e perguntaram se tinha mais alguém na casa. Foi quando o avô levantou da cadeira e falou: ‘Estou só eu e o meu neto’. Nesse momento, Hamilton se levantou da cama, abriu a cortina [o quarto não tem porta] e, sem poder dizer nada, tomou três tiros seguidos, sem ele poder nem se defender”, afirmou.
Ainda de acordo com Ana, ao ser atingido pelo segundo tiro, Hamilton caiu e falou para o avô [a quem chamava de pai]: “Pai, está doendo demais!”. “Os policiais pegaram ele pelas pernas e pelos braços e o jogaram na viatura como se fosse um animal. Ele até machucou o rosto porque bateu nos ferros da viatura. Levaram imediatamente para o Socorrão [Hospital Regional de Urgência e Emergência de Presidente Dutra], mas ele já chegou lá sem vida”, disse ela.
Assim que soube da morte do rapaz, Ana se dirigiu ao hospital e, em seguida, à delegacia, onde tentou registrar um boletim de ocorrência com sua versão do caso. No local, o delegado César Ferro supostamente se negou a registrar o documento e disse apenas que Hamilton havia sido “pego em flagrante”.
“[O delegado] Disse que o Hamilton foi para cima dos policiais com uma faca. Só que como é que uma pessoa vai para cima de três policiais com uma faca? Quando eu perguntei se ele sabia que o meu filho tomava remédios para os problemas mentais, o delegado ficou quieto”, compartilhou ela.
Ana Maria apontou, ainda, que o delegado não mostrou a suposta arma branca à família e nem disponibilizou um mandado de prisão ou de busca e apreensão que justificasse a ida dos policiais até sua casa. Ela afirmou, também, que o corpo do filho foi retirado do local sem que uma perícia fosse feita.
“Não mandaram ninguém fazer a perícia, mandaram outros policiais retirarem as cápsulas das armas. Eles não me deram a declaração de óbito”, revelou. “Poderiam ter chegado em casa, com mandado de prisão e levado [Hamilton] à delegacia. Por que o meu filho não pode ter a defesa dele? Cadê a arma do crime? Cadê a faca? Qual foi o flagrante? Estar mexendo no celular na cama?”, questionou.

Ela revelou, ainda, que o jovem era muito querido entre os vizinhos. “Ele era muito prestativo, muito trabalhador, era ajudante de pedreiro, pintava, capinava, todo mundo aqui viu ele crescer, ele respeitava as crianças, os mais velhos e estava acabando o ensino médio. Quando estava agitado, ele passava o dia na casa dos vizinhos. Ele era conhecido, fazia muita ‘macacada’, todo mundo gostava dele”, relembrou.

A morte de Hamilton, enterrado na última sexta-feira (18), revoltou os moradores da região de Presidente Dutra. No sábado (19), vizinhos do jovem queimaram pneus na cidade em forma de protesto à atitude da polícia. A família está organizando uma nova manifestação para a próxima quarta-feira (23), na mesma cidade.


“Eu quero justiça, quero lutar pela memória do meu filho, sei que não vai trazer ele de volta. Eu sei que a batalha vai ser difícil, mas não vou desistir. Enquanto estiver viva, vou lutar pela memória do meu filho”, concluiu.

O que diz a polícia
A Delegacia de Presidente Dutra chegou a divulgar uma nota sobre o caso no Instagram. No entanto, horas mais tarde, a equipe deletou o texto. No comunicado, a polícia afirmou que as postagens do jovem nas redes sociais eram “ameaçadoras”.

“[Hamilton] Teria publicado fotos segurando uma faca, dando a entender que faria algo semelhante, levando parte da população ao desespero. Foi determinado aos investigadores que fossem até o local e averiguassem a situação, já que, em tese, estaria praticando apologia ao crime, a princípio”, começou.

“Quando os policiais chegaram ao local, o rapaz estava na casa na companhia apenas de um senhor de 90 anos e não atendeu a ordem policial, tentando atacar os policiais [conforme B.O. registrado], os quais, diante da situação apresentada, tiveram que efetuar disparos de arma de fogo contra o rapaz”, continuou a nota. Ainda de acordo com os policiais, Hamilton foi socorrido imediatamente e levado ao hospital da cidade, onde chegou com vida. //UOL

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